Faz tanto tempo que não escrevo, tanta coisa aconteceu!
Eu me isolei, não estava conseguindo compartilhar tudo que estava sentindo de uma forma que não fosse doer mais ainda. Percebi que minhas últimas publicações tinham sido pesadas e bem fora do meu objetivo principal: A Corrida!
Então vou tentar fazer um resumo...
Janeiro e Fevereiro tive uma piora muito grande nas crises de enxaqueca, foram severas e fui forçada a iniciar e testar vários tratamentos novos.
Um deles pareceu muito promissor: Bloqueio Anestésico do Nervo Occipital!
No Hospital São Paulo, injetaram anestésico com corticóide direto no nervo na nuca. O procedimento em si foi bem dolorido e assustador, e eu chorei de emoção ao perceber que estava sem dor alguma alguns minutos depois da aplicação. Estava me sentindo estranha, mas pensei ser normal, por ser algo novo! A aplicação deveria durar entre 7 a 14 dias e então eu deveria retornar pra fazer novamente. Na manhã seguinte acordei com dormência nas mãos e nos pés, formigamento nos braços e nas pernas, manchas pelo corpo todo e dificuldade pra respirar. Esses sintomas duraram por mais de uma semana e quando começaram a aliviar a dor começou a se intensificar. Voltei para uma nova aplicação, acreditando ter sido apenas coincidência. Corticóide e anestésico não deveriam causar alergia ou reações como essas. Nunca foi relatado antes.
Na segunda aplicação a dor não zerou como na primeira vez e os sintomas ficaram mais severos. Foi bem difícil de lidar. Decidimos não fazer mais nenhuma aplicação. O risco era muito grande.
Poucas semanas depois fui desligada do meu trabalho, e o que eu achei que poderia ser a pior coisa que poderia me acontecer, foi só o início de toda reviravolta que minha vida daria.
No mesmo mês iniciei um tratamento novo na UNIFESP, e como sabia que não seria fácil, me foquei em cuidar da saúde e não procurei emprego naquele momento. As medicações novas causaram várias reações adversas, mas trouxeram benefícios, eu passei a conseguir dormir a noite, e os desmaios desapareceram! Zero desmaios!
Apesar das reações horríveis, insisti, acreditei que quando meu organismo se adaptasse iria melhorar. E realmente melhorou um pouco a cada dia. A dor continuava, mas as outras reações da dor como desmaios, náuseas, tontura, insônia, sumiram. Considerei isso como uma evolução significativa.
No mês seguinte voltei para a nova consulta e dobraram a dosagem das medicações e ficou difícil novamente. Mas como da vez anterior com o passar dos dias foi aliviando. Então persisti e segui a risca o tratamento. Apesar da sonolência que tinha aumentado muito, o resto era suportável.
No mês seguinte descobri que teria que mudar de casa, a princípio não sabia pra onde ir, só sabia que precisaria sair da casa que morava em pouco mais de um mês. Isso me derrubou. Mas como estava evoluindo bem no tratamento resolvi que iria transformar essa tristeza e mágoa em energia para treinar. Mês de Junho treinei os 30 dias do mês. Treinei com uma dedicação que nunca tinha treinado na minha vida. Isso me ajudou a superar o vazio e o medo que eu estava sentindo.
Final de Junho voltei para outro retorno e dobraram novamente a dosagem. Perceberam quantas vezes já usei o termo "dobraram a dosagem"? Pois é! E nessa última vez ficou demais, eu já havia percebido que a medicação estava me fazendo ganhar peso, mesmo treinando e cuidando da alimentação. Mas isso era o menor dos problemas. As reações da medicação começaram a me fazer realmente mal, eu dormia muito, cerca de 14h por dia e tinha pesadelos muito fortes e reais. Quando estava acordada eu me sentia angustiada, deprimida, e mal conseguia reagir. Ficar acordada já exigia mais do que eu era capaz naquele momento, e o meu momento de vida exigia que eu fosse forte e lutasse. Precisava arrumar a mudança, tinha chegado o dia D, e eu não conseguia. Simplesmente não tinha forças. Adiei por mais 1 semana, acreditando que o efeito da medicação iria amenizar, e nada!
Com ajuda, arrumamos tudo e me mudei, voltei para a casa da minha mãe em Santo André. E apesar de todo apoio e força da minha família e dos meus amigos, eu me via sem chão. Não conseguia reagir. Estava apática, só conseguia chorar e dormir. Naquele momento eu não via sentido em continuar insistindo e existindo. Mas alguma coisa dentro de mim me disse que isso estava errado, conversei com um amigo e falei da minha desconfiança de estar assim por causa da medicação. Faltavam 2 meses e meio para o retorno, não existia a menor condição de continuar desse jeito por tanto tempo então resolvi cortar a Olanzapina! Continuei com o Topiramato! Meu maior medo nessa decisão foi de que os desmaios voltassem, mas eu precisava arriscar. E arrisquei.
No começo foi muito difícil porque não reduzi a dose e cortei aos poucos, parei de uma vez. Passei a ter crises de ansiedade, tremedeira, taquicardia, em alguns dias eu estava deitada e meus batimentos estavam em 115bpm, eu suava frio, tinha muita náusea e mal conseguia comer. Eu dormia pra não sentir tanto os efeitos.
Conforme os dias foram passando, os efeitos foram amenizando, os desmaios não voltaram, e um pensamento veio a minha cabeça: Faltava 1 mês pra Corrida Vênus que eu faria 15k! Íamos começar o mês de Agosto e eu estava sem treinar desde o último dia de Junho. E esse momento foi um divisor de águas pra mim, como foi começar a Dieta em Setembro de 2017, era tudo ou nada! Ou eu iria reagir, treinar, cuidar da minha mente e do meu corpo e dar o melhor de mim, ou me entregar de vez. E essa segunda opção não era opção.
Voltei a assistir vídeos motivacionais, procurei novos vídeos, comecei a meditar, e passei a alimentar minha mente com pensamentos grandes de vitória.
Pensei na minha vida, em tudo que já tinha enfrentado, tudo que já tinha superado, tudo que já foi tão pior, e venci. Lembrei da última cirurgia do maxilar, da paralisia facial, da necrose, e do quanto fui forte naquela época. Busquei aquela força pra me reerguer.
Foi um mês inteiro, fortalecendo mente e corpo. Chegou o dia da Vênus, e eu estava apavorada! Seriam 15k, eu tinha treinado 1 mês, bem menos do que tinha planejado! Mas dentro de mim eu sabia que eu tinha que fazer isso, que não seria fácil, mas que concluir isso poderia trazer uma sensação de força, e eu precisava disso.
O que eu não sabia é que naquele dia eu iria descobrir que sou muito mais forte do que imaginava. Eu não só conclui os 15k como fiz melhor e em um tempo abaixo do que tinha previsto, a Bianca me esperou no meio da prova, ela sabia que eu iria precisar dela, e me puxou nós quilômetros finais, chegamos juntas e naquela chegada eu renasci! Naquele momento eu me reencontrei.
A Vera que eu perdi em 2015 quando a dor surgiu na minha vida, a Vera destemida, forte, batalhadora, que mete as caras, que não fraquejava quando uma dificuldade aparecia, ela estava de volta.
Quinze dias depois, participei do Circuito das Estações Etapa Primavera, eu estava inscrita para 5k mas a largada seria as 8h, a largada dos 10k seria as 6h30, eu não queria largar as 8h, não consegui trocar a inscrição, mas fui pra 10k mesmo assim, a medalha era igual, então só fui...
Comecei a prova com a Jéssica e falei: "Vou segurar, vou leve! Quero tentar correr a prova inteira sem andar!" E assim fomos juntas por cerca de 4kms, chegamos na subida da Rua Estela e eu não queria quebrar, então reduzi o ritmo pra conseguir correr a subida inteira. Quando cheguei no topo da subida eu estava ótima, tinha muito fôlego, e estava entrando no minhocão e nesse momento decidi mudar a estratégia, aumentar o ritmo a cada quilômetro. E assim segui pelo minhocão todo, não parei nem nos postos de hidratação.
Quando cheguei novamente na Rua Estela, mas agora descendo eu continuava muito bem. Os batimentos estavam sob controle, bati o olho no relógio e fiz uma conta rápida e percebi que se conseguisse apertar mais um pouco e manter eu bateria meu RP! Será? Meu RP nos 10k era do início de 2015. Eu ainda não tinha passado por nada, as crises estavam no começo, eu era magra, meu RP nos 5k era abaixo de 32 minutos. Parecia algo inatingível. Sem diminuir o ritmo peguei o celular e coloquei o vídeo motivacional que chamo de soco na cara! Coloquei na minha cabeça que seria impossível somente se eu desistisse. Seria impossível se eu não tentasse. E o que eu tinha a perder?
Passei a mentalizar tudo que aprendi nos vídeos que tanto assisto. Fiquei dizendo pra mim mesma que aquilo não era nada perto de ter superado a obesidade, da separação, de enfrentar a enxaqueca todos os dias. Aquilo não era nada!
E eu concluí a prova, sem andar, em um tempo que eu não imaginava que seria capaz de fazer novamente, e ótima! Achei que não tinha dado RP por causa de alguns segundos... Conferi no Nike e bati meu RP por mais de 1 minuto! Eu me senti invencível!
Mas não era a minha prova alvo ainda e ela me assustava, continuei treinando, e meu joelho estava reclamando então achei que talvez não conseguiria.
Enrolei muito pra fazer o longão de 18k, porque eu sabia que se eu falhasse, poderia desistir da prova. Eu tinha muito medo de fazer 21k. Em 2016 eu fui pra uma meia maratona e quebrei no km4, andei até o km7 pra achar uma ambulância e voltar pra arena. Depois disso toda vez que pensava em fazer 21k, um frio descia pela minha espinha.
Esperei até o limite pra fazer o longão, queria certificar que o joelho estava bom pra isso. Na véspera da data limite ele parou de doer, foi como um sinal pra mim. Por segurança resolvi fazer os 18k na esteira da academia, lá teria suporte caso algo acontecesse, mas DEZOITO QUILÔMETROS NA ESTEIRA, seria difícil! Preparei a playlist da prova, era diferente do habitual, músicas calmas pra não me fazer acelerar muito. O objetivo era concluir e não ir rápido demais. Eu sabia que se forçasse no início poderia ter que abandonar a prova.
Conclui os 18k, joelho não inchou, mas reclamou um pouco, o que me fez pensar se iria valer a pena fazer os 21k com o risco de uma lesão.
Cuidei até o dia da prova e fiquei observando, na véspera da prova, ele parou de doer completamente, não tinha inchaço e nem incômodo.
Chegou o dia da W21K, estava tudo pronto! Eu estava pronta! Física e psicologicamente!
Combinei de fazer a prova com a Fernanda e assim fomos, com o único objetivo de concluir. No km7 eu senti um pouco o joelho direito, sendo que tenho condromalacia no esquerdo e na hora pensei: Ah não! Você não vai doer agora! Eu te proíbo! Quer doer? Dói na chegada! E até agora eu não sei se ele realmente parou de doer ou se eu ignorei tão forte a dor que parei de sentir. Durante os 21 quilômetros eu fiz questão de repassar na minha cabeça cada queda, decepção, traição, sofrimento, toda vez que quis desistir. Pensei em TUDO que sofri nos últimos 4 anos por causa da Enxaqueca. Pensei em tudo que ela tirou de mim, todo prazer de viver que perdi. E não me permiti chorar. Depois de passar tudo isso como um filme na minha cabeça chegou a hora de fazer o inverso, mentalizar tudo que venci, que superei, toda vez que fui forte, e a cada passada fui me reerguendo.
É impossível de descrever a sensação de bem estar que eu senti fazendo isso. Chegamos no km17, e eu estava inteira! Corri de costas, cantei, brinquei, e toda vez que eu dizia algo pra motivar a Fê não era apenas ela que eu estava motivando. Aquele era o nosso momento.
E concluímos... Eu sou Meia Maratonista novamente! Eu fiz 21k, em um tempo abaixo do que fiz em 2015! E o mais incrível é que terminei sem dor nenhuma, e não senti dor nos dias depois da prova.
Eu concluí minha prova alvo e provei pra mim mesma que eu sou capaz de muito mais do que imagino. Eu só preciso ir atrás de tudo que eu quero com todas as minhas forças.
A vida é uma verdadeira montanha russa e se eu me permitir ficar quebrada quando ela estiver embaixo eu nunca irei ver a paisagem maravilhosa que tem lá em cima. Eu sei que posso descer de novo, mas assim que isso acontecer preciso focar na subida sem desanimar e sem deixar isso ser mais forte do que merece ser.
E assim, eu tenho afastado os dias mais críticos das crises... Treinando, sonhando, planejando, mantendo o pensamento positivo e tendo fé de que tudo acontece por uma razão. E a razão da enxaqueca ter acontecido na minha vida foi a transformação. É bem provável que ela vai me acompanhar pro resto da minha vida, mas eu não estou disposta a permitir que ela faça eu perder mais nada.
Eu vou cuidar de mim, planejar e buscar meus sonhos.
Porque uma vida sem sonhos é uma vida vazia demais. E eu estou cansada de vazios.
É hora de transbordar!





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